Descobrindo tesouros na carta mais curta de Paulo

Tenho que confessar algo que pode soar um pouco estranho: de todas as epístolas do apóstolo Paulo, creio que sua carta mais curta (a carta de Filemom) é a minha favorita.

Me alegra que não seja a única carta de Paulo que temos. Mas seria uma grande perda para a igreja se este pequeno livro não tivesse sido preservado no cânon.

Assine o Blesss

Nos últimos anos tenho lido a carta inúmeras vezes, e posso testificar por experiência que há muitos tesouros, peças únicas de conhecimento e sabedoria, esperando ser descobertas.

O PANO DE FUNDO

O apóstolo Paulo, sob arresto domiciliário em Roma, ditou uma carta a Filemom.

Filemom, um crente abastado que era anfitrião de uma casa-igreja em Colossos, provavelmente tinha se convertido a Cristo anos antes através do ministério de Paulo em Éfeso.

Depois de dizer a Filemom o quão agradecido estava por ele, e de dizer o quanto orava por ele, Paulo menciona um nome do passado de Filemom: Onésimo.

Onésimo era um servo ou escravo incrédulo que tinha deixado a casa de Filemom. Ao ler as entrelinhas, é possível que tenha fugido, e também é possível que tenha roubado a Filemom neste processo.

Na estranha providencia de Deus, Onésimo cruzou com o apóstolo encarcerado à 1600 quilômetros de distância, em Roma. Através de conversas, Onésimo passou a crer em Cristo como Senhor e Salvador, convertendo-se em filho espiritual de Paulo, tal como Filemom anos antes.

Agora um ancião, e dependente da ajuda de outros por causa da sua prisão, Paulo anelava que Onésimo ficasse com ele.

Mas a conveniência e a comodidade não era a motivação de Paulo. Era o evangelho. Ainda que enviar Onésimo era como enviar o seu próprio coração, Paulo via a reunião de Filemom e Onésimo como uma oportunidade para que ambos homens dessem à igreja e a mundo, uma parábola viva da reconciliação e irmandade no evangelho.

O MENSAGEIRO

Esta não foi a única carta que Paulo escreveu enquanto esteve na prisão. Provavelmente escreveu aos Efésios e aos Colossenses na mesma época.

Em Colossenses (lembre-se que Filemom vivia em Colossos) obtemos uma pequena e fascinante pérola. Paulo diz que o mensageiro Tíquico “te contará tudo sobre as minhas atividades”. E tinha um companheiro de viagem: “Onésimo, fiel e amado irmão, que é um de vocês” (Colossenses 4.7,9).

Então, como foi que a carta a Filemom, junto com as cartas aos Efésios e Colossenses, viajou milhares de quilômetros de Roma até a Ásia Menor? Através dos mensageiros Tíquico e Onésimo.

Por isso, podemos imaginar a Onésimo com o pergaminho enrolado em sua mão suada, batendo na porta do seu antigo senhor. Ele entrega esta carta de Paulo que explica como Onésimo foi convertido em um crente, e suplica que os dois se reconciliem.

Perceba também que não existia a “leitura silenciosa” no mundo antigo. E Paulo dirigiu a carta não só a Filemom, mas também à Apia (provavelmente a esposa de Filemom) e Árquipo (provavelmente o filho de Filemó), e a toda casa-igreja.

É uma poderosa cena a que vemos: Filemon lendo a carta em voz alta na presença de Onésimo.

A PERGUNTA

Esta é a única carta de Paulo que não menciona seu apostolado na saudação. Ele quer enfatizar a Filemom que está escrevendo primeiramente como seu amigo, não como superior. Em lugar de dar uma ordem direta a seu filho espiritual, prefere fazer sua petição baseada no amor. Construindo uma retórica mestra baseada no amor, Paulo escreve de tal maneira que Filemom não se verá forçado a obedecer contra sua vontade, mas terá alegria e atuará por vontade própria. Paulo sinala que seu pedido deve ser encarado como uma oferta, a qual Filemom pode aceitar.

Paulo oferece vários atrativos no caminho. Destacaremos três:

1. Isso seria ganho.

Filemom não apenas recuperaria seu servo, mas também ganharia um irmão amado no Senhor. “Quer ver as pessoas de sua igreja vindo à fé e expandir sua família espiritual, Filemom? Bem, então pode considerar isso como um presente”.

2. Não há nada a perder.

Se Onésimo lhe roubou algo quando fugiu, ou se está endividado de alguma forma, Paulo diz algo assim: “Coloque tudo na minha conta. Você me deve a própria vida, Filemom, mas prometo devolver tudo o que Onésimo te deve”. Paulo quer que Filemom receba Onésimo como a ele mesmo.

3. Isso aumentaria a alegria de Paulo.

“Sim, irmão, me permita desfrutar este benefício – diz Paulo. Conforte meu coração em Cristo. E a maneira de fazer isso é vendo meus dois filhos na fé vivendo juntos como irmãos no Senhor”.

O apóstolo acrescenta um incentivo mais quando diz: “Provavelmente eu passe por essa vizinhança em breve, então por favor, me prepare um quarto”. (“Sem pressões, Filemom, independente da aceitação ou não desse meu pedido”).

Ainda que não tenhamos registro da resposta de Filemom, sabemos que Paulo acreditava que Filemom receberia Onésimo como um irmão no Senhor.

DUAS TRAJETÓRIAS, DUAS LEMBRANÇAS

A maioria de nós deixamos de ler a carta aqui, mas há duas lembranças consoladoras e cheias de lições enterradas no final.

1. O caso de Marcos

No desfecho da carta, Paulo menciona “Marcos”. Não é qualquer pessoa chamada Marcos, mas Marcos, aquele que escreveu um dos quatro Evangelhos.

Anos antes Marcos tinha ajudado Paulo e Barnabé (primo de Marcos) na sua primeira viagem missionária. Mas por alguma razão não revelada, abandonou Paulo durante a viagem (Atos 13.13).

Mais tarde, quando Barnabé quis levar Marcos a outra viagem, Paulo e Barnabé tiveram um “não pequeno desacordo” (Atos 15.39). Paulo não queria que Marcos fosse com eles, e o dano relacional foi aparentemente profundo.

Nunca saberemos de que forma este problema se resolveu. Mas graças a essa preciosa pérola das cartas de Paulo, sabemos que foi resolvido. Paulo menciona a Marcos como um de seus amigos e companheiros no evangelho. Paulo fez aquilo que desejava que Onésimo e Filemom fizessem.

A coisa mais animadora que encontramos escondida nessa carta é que os crentes de boa vontade podem ter uma separação dolorosa e um conflito não resolvido. Contudo, o final da história ainda não foi escrito. Talvez antigos amigos te magoaram profundamente e você ainda não experimentou o tipo de reconciliação que restaurará as coisas e reconstruirá a confiança. O exemplo de Paulo e Marcos ensina que mesmo que levem anos, Deus planifica a longo prazo. Nenhum relacionamento está irrevogavelmente além da restauração.

2. O caso de Demas.

Há um nome mais que se destaca neste desfecho: Demas. O companheiro de trabalho de Paulo, Demas, como Marcos, envia saudações a Filemom.

Este nome soa familiar? Reaparece em 2 Timóteo, escrita a depois da carta a Filemom. Em um dos versículos mais tristes que Paulo escreveu, ele informa que “Demas me abandonou, amando o presente século” (2 Timóteo 4.10).

Demas, que parecia e soava como companheiro do evangelho, era na realidade um apóstata disfarçado. Ele estava com eles, mas nunca foi verdadeiramente um deles (cf. 1 João 2.1). Ele era um lobo disfarçado de ovelha (veja Mateus 7.15). Ele escolheu o caminho espaçoso do mundo, ao invés do estreito caminho da cruz.

E até isso, ao que me parece, estranhamente nos conforta, ainda que à sua maneira.

Alguns de nós tivemos pessoas próximas que se afastaram do Senhor e naufragaram na fé. Pode ser um amigo ou um colega, uma mãe ou um pai, um irmão ou uma irmã. Pode ser inclusive um pastor. E depois que eles caem, nós geralmente nos perguntamos: “Há algo que eu poderia ter feito de maneira diferente? Houve alguma coisa que eu não vi? Será que houve algo que eu deveria dizer, e não disse?

Estou agradecido de que Paulo não nos diga simplesmente que estamos obrigados a “viver em paz com todos”; ele também acrescenta dois elementos: “Se for possível, em quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens” (Romanos 12.28).

Mesmo quando devemos fazer tidos os esforços possíveis, as vezes, sem importar o que façamos, as pessoas que amamos e em quem confiamos, finalmente escolherão afastar-se para evitar caminhar na luz.

AO FINAL DO DIA

Ao final do dia (literalmente), todos nos apresentaremos diante do Senhor. Há alguns que nos abandonaram neste mundo, com os quais algum dia nos reconciliaremos. E pode haver também alguns de pé agora, junto a nós, que algum dia acabarão abandonando a nós e a Deus.

Enquanto isso, nosso chamado é para permitir que a graça de Deus reine em nossas vidas (Filemom 1.25). Devemos fixar nossos olhos nEle, o autor e consumador de nossa fé (Hebreus 12.2). Afinal, a quem mais poderíamos ir?

Justin Taylor é você-presidente e editor geral de livros na Cossway. Também escreve em seu blog Between Two Words

Publicado originalmente em The Gospel Coalition. Tradução: Léo Gonçalves.